Final Fantasy Resonance mostra que o clássico ainda funciona
Com visual HD-2D, novo jogo da Square Enix resgata as origens da franquia, mas deixa a desejar em um ponto importante

Poucas franquias são tão importantes para a história dos RPGs quanto Final Fantasy. Desde sua estreia, em 1987, a série da Square Enix conquistou gerações de jogadores com histórias marcantes, personagens inesquecíveis e sistemas de combate que ajudaram a definir o gênero. Quase quatro décadas depois, a franquia continua se reinventando, sem abandonar completamente aquilo que a tornou um fenômeno.
Os fãs brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer dois caminhos bastante diferentes para o futuro da série durante a Brasil Game Show (BGS). De um lado, Final Fantasy VII Revelation, aguardado capítulo final da trilogia de remakes, com lançamento marcado para 8 de abril de 2027. Do outro, Final Fantasy Resonance, que aposta na nostalgia dos RPGs clássicos e em uma apresentação moderna no estilo HD-2D. Ambos estiveram disponíveis para experimentação no estande da Square Enix durante o evento.
Lançado em 22 de outubro para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2 e PC, Final Fantasy Resonance chega com uma proposta interessante: recuperar a essência dos títulos da era dos 16 e 32 bits, mas com recursos e mecânicas que tornam a experiência mais profunda e acessível. O resultado é uma aventura capaz de conquistar fãs antigos e apresentar uma faceta diferente da franquia aos novos jogadores.
Um retorno às origens com identidade própria
Final Fantasy Resonance marca a estreia da franquia no estilo gráfico HD-2D, popularizado por Octopath Traveler e alguns outros títulos da Square Enix.
A direção artística combina personagens em pixel art com ambientes tridimensionais, iluminação elaborada e efeitos visuais modernos. A mistura funciona especialmente bem na construção dos cenários, que apresentam uma variedade de ambientes e conseguem transmitir a grandiosidade do universo de Final Fantasy sem abandonar o charme dos jogos antigos.
Apesar da aparência inédita dentro da série, a origem do projeto é conhecida por parte dos fãs. Resonance utiliza como base Final Fantasy Brave Exvius, RPG lançado originalmente para dispositivos móveis, que contava com mecânicas de gacha. Entretanto, a experiência foi profundamente reconstruída, com mudanças na apresentação, na estrutura da aventura e principalmente nas batalhas.
Na prática, o resultado está muito mais próximo de um RPG tradicional de consoles do que de uma adaptação de jogo mobile. A reformulação é extensa o suficiente para que Resonance funcione como uma aventura independente, sem exigir qualquer familiaridade com Brave Exvius.

Uma história que vai além do bem contra o mal
A aventura acontece em Lapis, um mundo cuja estabilidade depende de poderosos cristais elementais. Quando surgem sinais de que o Cristal da Terra está enfrentando uma perturbação, Rain e Lasswell, dois guerreiros do reino de Grandshelt e amigos de longa data, recebem a missão de investigar o problema.
Esse é o ponto de partida para uma jornada que começa com elementos bastante familiares aos fãs de Final Fantasy. Há cristais ameaçados, um mundo em perigo e personagens dispostos a enfrentar forças aparentemente malignas. No entanto, a história se mostra mais interessante conforme seus conflitos ganham novas camadas.
Um dos maiores acertos de Resonance está justamente na construção de seus personagens. A narrativa não se contenta em apresentar heróis completamente corretos e vilões movidos apenas pela maldade. Ao longo da aventura, as motivações dos envolvidos ficam mais claras, revelando diferenças de valores, objetivos e perspectivas.

Combate por turnos é bem executado
Se a narrativa é um dos pilares de Final Fantasy Resonance, o sistema de combate é o elemento que realmente sustenta a experiência durante suas dezenas de horas de campanha. O jogo utiliza encontros aleatórios e batalhas por turnos e cada inimigo possui uma barra de vida e outra de postura, e saber trabalhar com esses dois indicadores é fundamental para vencer os confrontos mais difíceis.
Ao esgotar a postura de um adversário, é possível interromper sua ação, abrir espaço para ataques adicionais e aumentar consideravelmente o dano causado. Quando todos os inimigos têm suas posturas quebradas, o grupo ainda pode executar golpes especiais associados às Visions, uma das principais mecânicas do jogo.
O sistema incentiva o jogador a pensar antes de agir, identificar vulnerabilidades e combinar habilidades de maneira eficiente. Isso evita que os confrontos se transformem em uma sequência repetitiva de comandos, algo especialmente importante em um RPG de longa duração.
Outro aspecto positivo é a variedade de desafios. Os chefes principais exigem boas estratégias, enquanto os confrontos opcionais oferecem oportunidades para testar combinações mais elaboradas de personagens e equipamentos.
Um dos recursos mais interessantes de Resonance é o sistema de Visions, manifestações de personagens que podem ter origem no próprio universo do jogo ou em outros mundos da franquia.
Isso permite utilizar habilidades de figuras conhecidas pelos fãs, como Terra, de Final Fantasy VI, Cloud, de Final Fantasy VII, e Zidane, de Final Fantasy IX. Mais do que participações especiais, esses personagens exercem uma função importante na construção das estratégias de combate.
Cada Vision possui habilidades ativas e passivas, além de um sistema próprio de progressão. Conforme são utilizadas, elas liberam melhorias que podem continuar disponíveis mesmo depois de serem substituídas por outras.
Essa liberdade transforma a personalização em um dos grandes atrativos da experiência. Um personagem especializado em ataques de gelo, por exemplo, pode receber habilidades de fogo, vento ou água para ampliar sua eficiência contra inimigos de diferentes elementos.

Também é possível criar combinações focadas em acertos críticos, dano mágico, ataques físicos ou velocidade de recuperação dos Limit Bursts, golpes especiais que podem causar danos expressivos.
As possibilidades aumentam ainda mais com a presença dos Espers, invocações poderosas como Ramuh e Leviathan, e com a utilização de efeitos positivos e negativos durante os combates. Aceleração, envenenamento, paralisia, fortalecimento e enfraquecimento são apenas algumas das ferramentas disponíveis.
Exploração recompensa, mas poderia oferecer mais liberdade
Fora das batalhas, Final Fantasy Resonance apresenta um mundo repleto de cidades, vilarejos, santuários, masmorras e regiões opcionais. Há também um coliseu, desafios adicionais e locais dedicados à obtenção de novas Visions.
As missões secundárias oferecem recompensas interessantes e ajudam a desenvolver os personagens de maneira equilibrada, permitindo avançar pela campanha sem a necessidade constante de repetir batalhas apenas para ganhar experiência, o famoso grind.
Outro acerto está na progressão dos integrantes do grupo. Embora apenas quatro personagens participem diretamente dos combates, aqueles que ficam de fora também recebem experiência. O sistema de viagem rápida também funciona muito bem, especialmente quando é necessário retornar a áreas antigas ou revisitar masmorras que antes apresentavam desafios acima do nível do grupo.

Entretanto, existe uma escolha de design que prejudica um pouco o senso de aventura: o excesso de indicações.
O jogo frequentemente mostra com muita precisão onde estão os objetivos e até mesmo determinados segredos. Embora isso facilite a navegação, também reduz a satisfação de explorar uma região por conta própria e descobrir algo inesperado.
Visual e trilha sonora mostram o capricho da produção
Visualmente, Final Fantasy Resonance consegue equilibrar nostalgia e modernidade. A combinação entre pixel art e cenários 3D dá personalidade ao mundo de Lapis, enquanto os retratos desenhados dos personagens ajudam a valorizar os diálogos e os momentos mais dramáticos.
A variedade de regiões também contribui para que a aventura não se torne visualmente cansativa. Como os cristais estão associados a diferentes elementos, os cenários exploram paisagens distintas e reforçam a sensação de estar viajando por um mundo amplo.
Na versão de PS5 utilizada como referência nesta análise, o desempenho se mostrou bastante consistente durante a maior parte da campanha. A interface também merece elogios. Os menus são organizados, as informações são apresentadas de forma clara e acompanhar o progresso das missões é uma tarefa simples.
Já a trilha sonora está entre os grandes destaques da produção. As composições conseguem transmitir aventura, tensão e emoção, enquanto a presença de temas conhecidos de outros Final Fantasy funciona como uma homenagem à trajetória da série.
Os efeitos sonoros também recebem atenção, desde os comandos dos menus até o impacto das magias, dos ataques críticos e dos golpes especiais. O jogo conta com dublagens em japonês e inglês, com boas interpretações que contribuem para a personalidade dos personagens e para o envolvimento com a narrativa.

A ausência de português brasileiro é difícil de justificar
Apesar de tantas qualidades, Final Fantasy Resonance apresenta uma ausência especialmente frustrante para os jogadores brasileiros: o jogo não possui localização em português, nem mesmo por meio de legendas.
A decisão chama atenção porque a própria Square Enix já demonstrou preocupação em tornar outros títulos da franquia mais acessíveis ao público do Brasil. Final Fantasy XV, Final Fantasy XVI, a coleção Pixel Remaster e os jogos da trilogia Final Fantasy VII Remake receberam textos em português brasileiro.
Por isso, é difícil compreender por que um lançamento como Resonance ficou de fora dessa iniciativa, especialmente considerando que se trata de um RPG com forte dependência de diálogos, descrições e informações sobre habilidades.
O problema vai além de acompanhar a história. O sistema de combate exige compreender efeitos de equipamentos, características das Visions, condições especiais e diferentes combinações de habilidades. Sem conhecimento suficiente de um dos idiomas disponíveis, parte importante da experiência pode se tornar confusa ou até inacessível.
A situação é ainda mais contraditória quando se observa a evolução da franquia no mercado brasileiro. Com Final Fantasy VII Revelation previsto para 2027 e uma presença cada vez maior da Square Enix em eventos nacionais, a ausência de localização em determinados lançamentos transmite uma sensação de inconsistência.

Veredito: Final Fantasy Resonance vale a pena?
Final Fantasy Resonance é uma demonstração de que a franquia não precisa necessariamente apostar em gráficos realistas ou combates de ação para continuar relevante.
Seu maior mérito está em compreender o que tornou os RPGs clássicos tão especiais e adaptar esses elementos para uma experiência moderna. A história apresenta personagens interessantes, o sistema de combate oferece liberdade para experimentar diferentes estratégias e o visual HD-2D transforma a nostalgia em um dos principais atrativos da aventura.
Existem problemas, como a exploração excessivamente guiada, algumas falhas técnicas pontuais e, principalmente, a ausência de localização em português brasileiro. Ainda assim, os acertos são numerosos e tornam a jornada especialmente recomendável para quem gosta de RPGs por turnos.




