South of Midnight - Review: Uma fábula sombria sobre raízes, traumas e reconstrução
Compulsion Games entrega uma experiência narrativa cativante, embora com desafios na jogabilidade

Em meio a um mercado saturado por jogos de mundo aberto cada vez mais inflados e mecânicas ultra complexas, South of Midnight, desenvolvido pela Compulsion Games e publicado pelo Xbox Game Studios, surge como um respiro criativo. Conhecida anteriormente por Contrast e pelo ambicioso, mas divisivo, We Happy Few, a Compulsion agora aposta em algo mais íntimo, narrativo e emocional. Com forte identidade visual, ambientação rara no mundo dos games e uma protagonista cativante, South of Midnight é um dos títulos mais singulares do catálogo recente da Xbox - e um dos mais memoráveis para quem busca mais sentimento do que espetáculo.
Disponível no Xbox Game Pass em seu lançamento, em 8 de abril de 2025, South of Midnight carrega consigo o peso (e a oportunidade) de ser experimentado sem barreiras por milhões de jogadores. É o tipo de jogo que talvez não chamasse tanta atenção pelo valor cheio, mas que encontra no modelo por assinatura o palco ideal para brilhar. E brilha.

Um conto mágico nas margens do sul dos Estados Unidos
A história gira em torno de Hazel Flood, uma jovem marcada pela perda e por um passado familiar conturbado. Após um desastre natural atingir a cidade de Prospero, Hazel parte em uma jornada para reencontrar sua mãe desaparecida. A cidade fictícia é inspirada em locais reais do sul dos Estados Unidos - como Alabama, Geórgia e Louisiana - e serve de palco para um mergulho no folclore sulista, onde criaturas míticas e traumas familiares ganham forma física e simbólica.

Hazel descobre que é parte de uma linhagem de Weavers, mulheres com poderes mágicos capazes de "tecer" conexões entre mundos, emoções e memórias. Ao longo do caminho, ela cruza com figuras lendárias como Two-Toed Tom, Altamaha-ha e Huggin' Molly, seres inspirados em mitos reais da cultura regional. Cada criatura é retratada com uma estética única, fazendo com que cada encontro tenha peso simbólico dentro da narrativa.
O enredo é conduzido com simplicidade, mas com alma. As mensagens sobre luto, resiliência, aceitação e reconexão são entregues com sensibilidade, por vezes comoventes, e em nenhum momento o jogo tenta parecer maior do que é. South of Midnight sabe exatamente o que quer contar - e como quer que você sinta.
Visual deslumbrante com alma artesanal
Um dos maiores trunfos do jogo está no seu visual. A Compulsion Games apostou em uma estética que mistura gráficos estilizados em tempo real com cutscenes em stop-motion, desenvolvidas em parceria com o estúdio Clyde Henry Productions. O resultado é um mundo que parece saído de um livro ilustrado, uma fábula interativa onde cada canto de Prospero esconde uma memória, uma dor, uma história.

A direção de arte foge do hiper-realismo comum nos jogos AAA atuais e abraça o surreal, o poético, o simbólico. O céu acinzentado, os pântanos enevoados, as cidades inundadas e os interiores destroçados criam um ambiente melancólico, mas belo. É impossível não lembrar de animações como Coraline ou até mesmo de filmes de Tim Burton, tamanha a identidade presente em cada frame.
Trilha sonora que embala a alma
Composta por Olivier Derivière, a trilha sonora é outro ponto de destaque absoluto. Mesclando blues, gospel, country e jazz, as músicas não apenas acompanham a jornada de Hazel, mas participam ativamente da narrativa. Algumas faixas têm letras que expandem o enredo ou os sentimentos dos personagens, criando um elo emocional entre jogador e história.

Além da trilha sonora instrumental, há momentos em que vocais fortes surgem em momentos cruciais, funcionando como espécie de "narrador musical" da jornada. É raro ver um jogo tão bem casado entre imagem e som, e South of Midnight acerta em cheio nesse aspecto.
Jogabilidade: simplicidade que funciona (até certo ponto)
Na parte jogável, o game se estabelece como um hack and slash com foco narrativo e cenários semiabertos. Hazel possui habilidades mágicas que evoluem ao longo da campanha, como ataques à distância, ganchos para locomoção, invocações de espectros e manipulação de objetos. O combate é simples, quase nostálgico, remetendo a jogos da era PS2, como Kya: Dark Lineage, Sphinx and the Cursed Mummy ou até mesmo Kena: Bridge of Spirits.

Contudo, embora funcional e visualmente interessante, o combate sofre com falta de profundidade e certa repetição. Os inimigos comuns não representam grande desafio e não recompensam o jogador de forma satisfatória, o que torna as batalhas uma espécie de interlúdio obrigatório, mais do que um destaque. Os chefes, por outro lado, oferecem variações de mecânica e ótimos momentos, ainda que pontuais.

Hazel também pode explorar o cenário em busca de colecionáveis, histórias secundárias e "nódulos de energia" que permitem desbloquear novas habilidades. Um destaque curioso é o uso da pelúcia Crouton, que ganha vida e pode acessar passagens estreitas, resolver puzzles e até ajudar em combate, um toque de charme que reforça o tom mágico da aventura.
Problemas técnicos e áreas que precisam de atenção
Nem tudo é perfeito em South of Midnight. Em termos técnicos, há problemas com colisão, especialmente nas sessões de plataforma, onde Hazel pode travar ou escorregar em quinas e beiradas. Essas falhas são pequenas, mas constantes o bastante para frustrar em certos momentos. Outro bug relatado (inclusive ocorrido durante esta análise) envolve o reset espontâneo das habilidades da protagonista, o que afeta diretamente a fluidez do gameplay.

Esses tropeços não anulam a experiência geral, mas demonstram que o jogo poderia se beneficiar de um polimento extra, algo que esperamos ver em futuras atualizações.
A força do Game Pass e o valor da descoberta
Ao ser disponibilizado no Game Pass desde o primeiro dia, South of Midnight atingirá um público que talvez não investiria o valor cheio em um jogo AA com foco narrativo e combate simples. Isso faz com que a obra possa ser experimentada por mais pessoas, e, ao mesmo tempo, mostra como o serviço da Microsoft pode ser uma plataforma de valorização de experiências alternativas.

Este é o tipo de jogo que merece ser descoberto, vivido, sentido, e o Game Pass oferece exatamente esse tipo de oportunidade. Um clique é o suficiente para iniciar uma fábula sobre perda, amor e reconstrução.
Afinal, Vale a Pena?
South of Midnight não é um jogo feito para todos. Sua estrutura simples, seu ritmo mais lento e sua abordagem emotiva podem afastar jogadores que buscam ação ininterrupta ou gráficos realistas. Mas, para quem procura uma história encantadora, visual marcante e trilha sonora memorável, a obra da Compulsion Games é uma pérola rara.
Com espaço para melhorias técnicas, mas com alma de sobra, South of Midnight é uma das experiências mais únicas da biblioteca recente do Xbox, e um dos melhores usos do Game Pass para quem quer ser tocado por algo novo, sensível e artisticamente ousado.